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Nova Andradina · Mato Grosso do Sul

Três mandatos, comparados com honestidade

Por mês de governo e corrigido pela inflação: as duas correções sem as quais a comparação entre prefeitos não significa nada.

Comparar prefeitos por quanto gastaram é fácil de fazer errado. Três coisas atrapalham, e as três estão corrigidas aqui: os dados confiáveis só começam em 2018, então o primeiro mandato aparece com três anos e não quatro; o mandato atual ainda está em curso e tem menos da metade dos meses dos outros; e um real de 2018 não vale um real de 2026.

Sobre o ano que falta: 2017 não entra porque o portal só tem 849 registros daquele ano. Como o gasto cresce com o tempo, incluir 2017 puxaria a média do primeiro mandato para baixo, não para cima. A comparação aqui é, portanto, generosa com ele.

Por isso tudo abaixo está por mês de governo e corrigido pela inflação, pelo índice oficial do IBGE, trazido para reais de 2026.

Gilberto Garcia (1º mandato)2018-2020 · 36 meses
R$ 20,6 mi
Gilberto Garcia (2º mandato)2021-2024 · 48 meses
R$ 26,3 mi
Leandro Fedossi2025-2028 · 21 meses
R$ 31,1 mi
Média empenhada por mês de mandato, em reais de 2026. Cada barra cobre um número diferente de meses.

Olhando só esse gráfico, a leitura óbvia é que o mandato atual gasta mais. E gasta mesmo: R$ 31,1 milhões por mês contra R$ 20,6 milhões do primeiro. Só que gasto sozinho não diz quase nada. Falta a outra metade da conta, que é a receita: quanto entrou no caixa em cada período.

A razão é simples. Uma prefeitura que recebe mais gasta mais sem que ninguém tenha decidido gastar mais, porque o dinheiro que chega carimbado para saúde e educação tem de ser aplicado ali. Sem olhar a receita, não dá para saber se o aumento veio de escolha da gestão ou de dinheiro que simplesmente entrou.

Gastou mais porque recebeu mais

O mesmo cálculo, aplicado à receita, mostra que o dinheiro que entra cresceu junto. E quando se olha quanto cada gestão gastou em relação ao que recebeu, a diferença entre elas quase desaparece.

Gilberto Garcia (1º mandato)3 ano(s) declarados
R$ 23,4 mi
Gilberto Garcia (2º mandato)4 ano(s) declarados
R$ 30,5 mi
Leandro Fedossi1 ano(s) declarados
R$ 34,6 mi
Receita realizada por mês, em reais de 2026, pela declaração ao Tesouro Nacional. O mandato atual tem só 2025 declarado.
MandatoPrefeitoMesesGasto/mêsReceita/mêsGasta / recebe
2018-2020Gilberto Garcia (1º mandato)36R$ 20,6 miR$ 23,4 mi88%
2021-2024Gilberto Garcia (2º mandato)48R$ 26,3 miR$ 30,5 mi86%
2025-2028Leandro Fedossi21R$ 31,1 miR$ 34,6 mi90%

A última coluna mostra quanto a prefeitura empenhou para cada R$ 100 que entraram. Nos três mandatos o número fica entre 86% e 90%. Proporcionalmente, as três gestões gastaram quase a mesma coisa.

De onde veio esse dinheiro a mais

A receita cresceu 48% por mês entre o primeiro mandato e o atual, já descontada a inflação. Não foi uma fonte só: cresceram todas, e por motivos que não passam pela prefeitura.

Estado (ICMS, IPVA, SUS-MS)22% do aumento
R$ 2,4 mi
FPM21% do aumento
R$ 2,3 mi
Imposto cobrado aqui17% do aumento
R$ 1,9 mi
FUNDEB16% do aumento
R$ 1,8 mi
SUS (União)9% do aumento
R$ 1,0 mi
ITR1% do aumento
R$ 153.434
FNDE e Salário-Educação1% do aumento
R$ 122.489
Quanto cada fonte contribuiu para o aumento da receita mensal, comparando o primeiro mandato com o atual, em reais de 2026.
O que fez cada uma crescer

FPM e cota-parte do ICMS juntos respondem por mais de 40% do aumento. São fatias de impostos federais e estaduais devolvidas ao município por fórmula fixa. Cresceram porque a arrecadação nacional e estadual cresceu, e porque houve reajustes de repasse no período.

O FUNDEB foi reformulado em 2020: a parte que a União complementa aumentou por lei, e municípios com mais alunos que arrecadação própria, como Nova Andradina, ganharam com isso.

O SUS cresceu com a habilitação de novos serviços e com os repasses de enfrentamento à pandemia, que entraram em 2020 e 2021.

O imposto cobrado aqui é a única fonte em que a prefeitura tem alguma influência, e cresceu 61%. Ainda assim, responde por menos de 20% do aumento total.

E o que a receita não explica

Aqui vale ser exato, porque a conta não fecha perfeitamente. O gasto por mês subiu 51% e a receita subiu 48%. O gasto cresceu um pouco mais rápido.

A diferença, medida

Se o mandato atual gastasse exatamente a mesma proporção da receita que o primeiro gastava (88%), empenharia R$ 30,4 mi por mês. Empenha R$ 31,1 mi.

A diferença é de R$ 659.591 por mês, 2,2% a mais, o que dá R$ 13,9 mi nos 21 meses até agora.

É pouco, mas não é zero, e não vamos escondê-lo atrás da média. Pode ser gestão mais expansiva, pode ser obra concentrada no início do mandato, pode ser efeito de o período ainda ser curto. O dado não diz qual, e quem afirmar que sabe está inventando.

Uma ressalva que muda o tamanho dessa conta: a receita do mandato atual cobre só 2025, porque a declaração de 2026 só será enviada em 2027. Se 2026 vier com receita maior que 2025, e a tendência dos últimos anos sugere que sim, essa diferença diminui ou desaparece. Quando a declaração sair, a conta será refeita aqui.

O que mudou e o que não mudou

A divisão entre as áreas praticamente não mudou. Saúde ficou com 33,6%, 33,1% e 34,9% nos três mandatos; educação, com 28,9%, 31,9% e 29,5%. Isso é o piso constitucional funcionando, não coincidência.

O gasto por mês subiu do primeiro mandato ao atual, já descontada a inflação. Como a seção acima mostra, isso acompanha a receita quase na mesma proporção.

Obra foi o que mais oscilou. O segundo mandato investiu mais que o dobro do atual, por mês, em obras, embora o atual gaste mais no total. Obra tem ciclo longo: um mandato empenha o que o anterior projetou, e vice-versa.

O que esta comparação não prova

Gastar mais não é gastar melhor, e gastar menos não é economizar. Um prefeito que pegou anos de repasse federal alto gasta mais sem ter feito nada diferente. Uma obra grande empenhada num ano aparece inteira ali, mesmo levando três anos para ficar pronta.

Estes números mostram o quê. O porquê exige ler o contrato, o projeto e o resultado.

Um detalhe de 2022

Naquele ano, cerca de 20% dos gastos ficaram sem registro de conferência, contra 6% em 2021 e 11% em 2023. Fomos atrás: a falha se concentra em setembro de 2022, no fundo do FUNDEB, e especificamente em empenhos de folha de pagamento. Todos os 89 empenhos “FOLHA – PREFEITURA” daquele ano estão sem liquidação registrada, além de INSS, FGTS e 13º.

Isso é compatível com uma troca de sistema de gestão, que aconteceu por volta daquele ano. É um problema de registro, não de obra que sumiu, o que diminui o alarme em vez de aumentar. Mas fica anotado: naquele ano, a trilha de conferência da folha não está no portal.

ContinueDe onde vêm estes números